Soja, milho e o futuro do Cerrado: o agronegócio goiano em transição
Goiás é um dos maiores produtores agrícolas do Brasil, mas o setor enfrenta pressões ambientais e econômicas que estão forçando uma reinvenção.
Meu pai plantou soja no Cerrado goiano por trinta anos. Viu o preço da terra multiplicar por dez. Viu a produtividade aumentar com cada nova geração de sementes e técnicas. Viu o Cerrado encolher ao redor de sua fazenda, substituído por mais soja, mais milho, mais pastagem.
Hoje, quando converso com ele sobre o futuro do agronegócio goiano, ele é mais cauteloso do que costumava ser. "A terra está cansada", ele diz. "E o mundo está mudando."
O Cerrado que ninguém defende
O Cerrado é o bioma mais ameaçado do Brasil — mais do que a Amazônia, em termos percentuais de área já destruída. Mas recebe uma fração da atenção e da proteção que a Amazônia recebe. Não tem a mesma visibilidade internacional, não tem o mesmo apelo emocional, não tem os mesmos defensores poderosos.
E é exatamente no Cerrado que o agronegócio brasileiro se expandiu de forma mais acelerada nas últimas décadas. Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia — o "MATOPIBA" e seus arredores são hoje o coração da produção agrícola nacional. E também o epicentro da destruição do Cerrado.
A transição que está acontecendo
Mas algo está mudando. Não por altruísmo — por necessidade econômica. Mercados internacionais, especialmente europeus, estão exigindo rastreabilidade e comprovação de que os produtos que compram não vieram de áreas desmatadas. Empresas que não conseguirem comprovar isso vão perder mercado.
Essa pressão externa está forçando uma transformação que a regulação interna não conseguiu provocar. Produtores que antes ignoravam questões ambientais agora investem em certificações, em sistemas de rastreabilidade e em práticas de produção mais sustentáveis — não porque acreditam nisso, mas porque o mercado exige.
É uma mudança por razões erradas. Mas pode ser uma mudança real.